quarta-feira, 30 de Julho de 2014

leituras

"Uma terceira pessoa cheia daquela fé suave e crepitante e grata e tranqüila, Laura, a da golinha de renda verdadeira, vestida com discrição, esposa de Armando, enfim um Armando que não precisava mais de se esforçar a prestar atenção em todas as suas conversas sobre empregada e carne, que não precisava mais de pensar na sua mulher, como um homem que é feliz, como um homem que não é casado com uma bailarina."

Clarice Lispector, A Imitação da Rosa em Laços de Família

leituras

"Apaixonei-me subitamente por fatos sem literatura [...]"

Clarice Lispector, A Hora da Estrela

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

...


junho 2014

leituras

"A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores brandam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros."

João do Rio, A alma encantadora das ruas

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

leituras

"A fotografia não se tornou uma arte por pôr em acção um dispositivo opositor da marca dos corpos à sua cópia. Tornou-se arte ao explorar a dupla poética da imagem, ao fazer das suas imagens, simultaneamente, ou separadamente, duas coisas: os testemunhos visíveis de uma história escrita sobre os rostos ou os objectos; e puros blocos de visibilidade, impermeáveis a qualquer narrativização, a qualquer travessia de sentido."

Jacques Rancière, O destino das imagens

leituras

"Há visibilidade que não faz imagem, há imagens todas elas feitas de palavras."

Jacques Rancière, O destino das imagens

leituras

"O rosto não é separável do corpo, em rigor, não é uma parte do corpo (embora a cabeça o seja), mas pode ser desfigurado. Lembre-se a ópera Jenufa de Janácek. Na morte, tal como se compreendeu o primeiro poema da humanidade, Epopeia de Gilgamesh, o rosto transforma-se em argila, em terra, isto é, perdeu o poder de olhar e de respoder ai olhar. Quanto à conversão do todo em rosto, lembre-se a criança dentro das águas maternas que permeia todo o universo final de 2001 - Odisseia no Espaço de Kubrick."

Maria Filomena Molder, Símbolo, Analogia e Afinidade

segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

das séries possíveis


a paisagem pouco exótica presta-se a isso. sem o ruído do verdadeiramente desconhecido reconheço repetições em lugares pelos quais nunca tinha passado. têm um grau de estranheza própria, demasiado pequeno para as nomear numa conversa, suficiente para serem remetidas para uma lista. 
(fiquei com uma série sobre campos de futebol por fazer.)

segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

sete anos

sempre tive dificuldade em decorar nomes e datas. são coisas que me fogem a uma velocidade vergonhosa. poderia ter feito listas das músicas de que mais gosto ou das datas de que gostava de não me esquecer, mas sem saber bem porquê essas listas nunca me pareceram relevantes e acabo sempre por me remeter a um silêncio ignorante quando me perguntam por elas.
ao contrário dos nomes e das datas, a lista de "perguntas a que a dado momento perdi a resposta" é uma das decoradas com assombrosa exactidão. hoje reencontrei uma das respostas há muito perdidas: sete anos. é esse o tempo que demora a que todas as células do nosso corpo morram e sejam substituídas por novas. (porque me lembro da altura exacta em que quis recordar-me desta resposta e não consegui sei que a fiz numa altura em que era materialmente outra - onde guardamos quem somos?)