segunda-feira, 7 de Abril de 2014

leituras

"A fotografia não se tornou uma arte por pôr em acção um dispositivo opositor da marca dos corpos à sua cópia. Tornou-se arte ao explorar a dupla poética da imagem, ao fazer das suas imagens, simultaneamente, ou separadamente, duas coisas: os testemunhos visíveis de uma história escrita sobre os rostos ou os objectos; e puros blocos de visibilidade, impermeáveis a qualquer narrativização, a qualquer travessia de sentido."

Jacques Rancière, O destino das imagens

leituras

"Há visibilidade que não faz imagem, há imagens todas elas feitas de palavras."

Jacques Rancière, O destino das imagens

leituras

"O rosto não é separável do corpo, em rigor, não é uma parte do corpo (embora a cabeça o seja), mas pode ser desfigurado. Lembre-se a ópera Jenufa de Janácek. Na morte, tal como se compreendeu o primeiro poema da humanidade, Epopeia de Gilgamesh, o rosto transforma-se em argila, em terra, isto é, perdeu o poder de olhar e de respoder ai olhar. Quanto à conversão do todo em rosto, lembre-se a criança dentro das águas maternas que permeia todo o universo final de 2001 - Odisseia no Espaço de Kubrick."

Maria Filomena Molder, Símbolo, Analogia e Afinidade

segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

das séries possíveis


a paisagem pouco exótica presta-se a isso. sem o ruído do verdadeiramente desconhecido reconheço repetições em lugares pelos quais nunca tinha passado. têm um grau de estranheza própria, demasiado pequeno para as nomear numa conversa, suficiente para serem remetidas para uma lista. 
(fiquei com uma série sobre campos de futebol por fazer.)

segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

sete anos

sempre tive dificuldade em decorar nomes e datas. são coisas que me fogem a uma velocidade vergonhosa. poderia ter feito listas das músicas de que mais gosto ou das datas de que gostava de não me esquecer, mas sem saber bem porquê essas listas nunca me pareceram relevantes e acabo sempre por me remeter a um silêncio ignorante quando me perguntam por elas.
ao contrário dos nomes e das datas, a lista de "perguntas a que a dado momento perdi a resposta" é uma das decoradas com assombrosa exactidão. hoje reencontrei uma das respostas há muito perdidas: sete anos. é esse o tempo que demora a que todas as células do nosso corpo morram e sejam substituídas por novas. (porque me lembro da altura exacta em que quis recordar-me desta resposta e não consegui sei que a fiz numa altura em que era materialmente outra - onde guardamos quem somos?)

terça-feira, 5 de Novembro de 2013

...


andava escondida no cabeçalho deste blog até ter sido resgatada - de forma completa - por culpa de metade da dupla Lina&Nando.

segunda-feira, 21 de Outubro de 2013

coincidências

esta sensação de esbarrar ao de leve com coincidências (não sei, na verdade, se isso é possível - esbarrar ao de leve -,  mas é qualquer coisa como as manhãs particularmente difíceis no metro, a tentar sair na paragem correcta) parece-me sempre resultado de horas excessivas em silêncio. andei a preparar-me para passar uma hora e meia a explicar coisas a um miúdo de 14 anos. claro que, como qualquer miúdo de 14 anos não trouxe nada do que lhe pedi. dei-lhe a escolher entre o livro que ando a ler a caminho do trabalho e o livro  de exercícios da aula dele. escolheu o meu livro e escolheu, de todos os ensaios, aquele que lhe parecia o menos mau da lista. lemos o texto várias vezes, tentei arrancar-lhe qualquer coisa que não fossem as palavras rapidamente decoradas. tentei que ligasse o que quer que fosse de forma menos óbvia. a última pergunta que lhe fiz pareceu-me previsível. perguntei-lhe qual seria o significado do título. achei que era demasiado fácil para ele se esquivar à resposta. sorriu envergonhado, também ele achou a pergunta fácil. suspirei com algum alívio, esperei que me respondesse "morte" e que relacionasse o conceito com o que tinha lido. ele respondeu-me "amor". 
o ensaio que lemos é dos últimos do livro, coisa difícil sobre o trabalho do Rui Chafes, ontem a tentar decidir se revejo o currículo, se trabalho só mais uma hora, se volto finalmente a correr, olhei para os ensaios e não fui capaz de pegar neles. peguei antes no fausto do Thomas Mann (haverá mito onde a morte e o amor estejam em pontos mais extremos?). hoje, a caminho do trabalho voltei aos ensaios:

"A acreditar no gélido deserto de Adrian Leverkühn, o riso diabólico é frio, mas este riso, que impregna o intervalo entre a visão e o nome, consagra todas as temperaturas, omnívoro: caldarium, temperarium, frigidarium, como nas termas romanas."

(não fosse o miúdo de 14 anos e não saberia reconhecer o riso de Adrian Leverkühn)